Texto de estreia: o valor marginal da escrita, os senões do discurso e alguns porquês

Tira da série Escravos, de André Dahmer

Não me lembrava de como é difícil escrever. Quando criei esta conta aqui no Medium, por volta de 2017, pensava apenas em flanar pelos textos sobre economia, literatura, ideias, linguagem, arte, reviews de livros, enfim, coisas de interesse pessoal. Agora, no pandêmico ano da graça de 2020, me dei por lançar mão da escrita em modesta tentativa de refletir sobre esses mesmos temas. Podemos pensar, por exemplo, as relações entre economia e estética (Safatle feelings), duas áreas que aparentemente não se imiscuem. É que por estes tempos me veio à tona certa necessidade de externar alguns lampejos, ou ao menos de tentar organizá-los nalgum canto. Também por muitos anos o fiz trabalhando com outro tipo de texto, dentro do plano de expressão pictórico, como desenhista; agora bateu vontade de atiçar os tinos no plano de expressão verbal. E assim como em desenho ou pintura não há traço ou pincelada sem intenção, cada palavra de um texto assumo como advinda de um pressuposto. E esta plataforma, pensei, poderá ser útil; poderá se tornar uma espécie de fichamento virtual de ideias, estudos ou notas.

Inicio-me neste app de maneira um tanto quanto esparsa e dispersa, escrevendo pelo celular e, em nome da prolixidade, estarei dizendo menos com mais. Meus contrapontos advertem: estamos arrumando a casa, ainda distraídos por pensamentos secundários que nos impedem comunicar algo com a clareza e progressividade requeridas a um texto vívido, que valha a disputada atenção do cérebro alheio. Será fácil perceber que ainda estamos esculpindo a fisionomia do estilo, desfiando o fio discursivo, objetivando, aos poucos, extrair dele uma linguagem e um método próprios, oxalá. De toda sorte, quando somadas as tentativas aos erros, restará às entrelinhas o desejo de alcançar um ponto que equilibre subjetividade e objetividade, mesmo sem saber se há esse ponto.

Em verdade, este texto inaugural será um ensaio sobre si e para si, tateando-se; buscaremos, em uma espécie de autoficção, a medida pela qual se consiga renunciar ao conforto das crenças pré-concebidas com as quais deveremos conflitar por aqui, afinal, este espaço foi pensado para ser passionalmente lastreado em impressões particulares com todas as vênias da fruição semântica.

Em função disso, vamos dar um moral logo na entrada e anunciar João Cabral de Melo Neto:

um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único em que se tem voz a seca ele combate.

Julgamos que esses versos do poeta pernambucano poetariam o que se tentou dizer anteriormente. Foram extraídos do poema Rios sem discurso. (Note-se que, ao fazer a transposição para o Medium, perdeu-se o enjambement. Mas se até a liberdade do curso dos rios concretos sofre obstruções…)

João Cabral diz sabendo o que diz. E, tomando a linguagem como uma espécie de repositório de experiências vividas, é na tessitura do texto onde gostaríamos de externar o pensamento dos rios, de confeccionar um tecido de frases atadas por diferentes fios ideológicos (talvez seja por isso que estamos em rede), de conter o vazamento dos enunciados blablabláveis. Tudo isso, olha só, sem perder a concretude, pois sabemos que [muita] distância entre intenção e gesto.

No fim, esperaremos correr para o mar, e este recinto terá boa margem de liberdade temática para isso, visto que estamos lendo e estudando coisas novas nos interregnos do cotidiano. É por isso que, nesta casa, será valorizado o pensamento reflexivo; porque a não mecanicização dos processos de linguagem nos ajuda a escapar da ingenuidade de achar que mesmo os princípios formais da lógica, por exemplo, sejam uma verdade pronta, caída do céu e ensimesmada sem que antes tenha passado por processos regidos pela linguagem, esta, um fenômeno social, dinâmico e historicamente situado. E aqui, ao menos em primeira hora, fez-se necessário tornar a pensar em termos lexicais, evocando a língua portuguesa; porque a palavra está na origem de nossos questionamentos sobre como as coisas se organizam no mundo, e é preciso exercitar, pois, a capacidade de construir associações, pela leitura ou pela escrita. Ora, toda e qualquer forma de conhecimento é mediada pela linguagem, apenas o discurso é moldado de acordo com a situação comunicativa.

É possível que tudo o que foi exposto acima tenha trazido ares de uma atmosfera meio cafona ou brega com b minúsculo. Se sim, vai piorar. Vai piorar porque estávamos há tanto acostumados a lidar com conceitos de viés meramente técnico e quando deparamos com um texto um pouco mais complexo, a partir do qual seja necessário pensar relações e cuja linguagem fuja só um pouquinho, muito pouco mesmo, quase nada, da dicionarização regressiva dos termos — perdemos o interesse. Na era dos memes, encerra-se a leitura na primeira página (às vezes no próprio título). Não só o ato de ler, mas também o modo como e a razão pela qual lemos são um modo de pensar. À luz do milagre da técnica, a impressão que fica nos dias que correm é a de assumir como sendo natural todo plano referencial-denotativo, em prejuízo das categorias abstratas...

Poderíamos por bem encerrar este texto aqui, mas consideramos que ele prefaciou a si mesmo. Então vamos à introdução.

Introdução

Inicialmente, este texto iria começar por aqui mesmo. Só depois vieram as ideias dessa introdução da introdução, escrita acima. A partir daqui tentaremos enfrasar os entrelaçados tais, pondo à prova a conformidade de nossas premissas. Ora, estamos falando de texto, então estamos dentro de nosso universo de preocupações. Ando percebendo algumas tendências contemporâneas de encantamento com estéticas tidas como sofisticadas, que utilizam palavras “nobres” para revestir um enunciado ou imagem qualquer, com fórmulas de expressão visualmente rebuscadas. Tudo bem. Geralmente são formas que mais se parecem com algum hall de entrada de qualquer consultório médico de edifício empresarial, há Romeros Brittos pelas paredes e em bibelôs de resina natalinos. Odes à alegria tocando ao fundo. Penso que esse enfeitiçamento se dê porque não se consegue admitir, a depender de quem escreve ou do que está escrito, que frases pomposas, dentro e fora da literatura, muitas vezes não passam de ornamentos que só gastam tempo e mancham papel de tinta ou fartam os blogues de caracteres. Um texto meramente prosaico com a mais rasteira linguagem do século XII pode se passar naturalmente por “alta cultura" em função de seus arcaísmos, ganhando com isso até um verniz poético sem que se perceba a anacronia da coisa. E é assim que se acredita que a intenção de determinadas fórmulas seja a de “elevar o espírito”, e essa crença depõe fé que, na contemporaneidade, seja viável recriar ou reviver o que um dia foi tão esplendoroso como a revolução grega no sistema de representação (sobre a qual Ernst Gombrich possui um ótimo ensaio). Tal modelo analisava o devir da arte e da poesia como um projeto filosófico interminavelmente debatido e colocava em evidência a plena harmonia e racionalidade dos sentidos em quadros humanos idealizados. Se funcionaria no século XXI? Schiller(!), aparentemente mais pé no chão que seu contemporâneo Goethe (que era mais rousseauniano que kantiano), respondeu a essa pergunta, e a conclusão é seca demais para alguém que viveu (n)o pathos germânico do século XVIII.

A real é que muita gente ainda é chegada numa pompa, e, falando nela, até veio à memória uma citação do talvez mais ilustre tragediógrafo do Classicismo de Weimar, o autor de Fausto, para, enfim! (ou: novamente!), debutar este espaço (e, de quebra, fazer as honras com essa pseudo-erudição tão obsoleta quanto ostentatória a que me referi agora):

Wer Wissenchaft und Kunst besitzt, hat auch Religion; wer jene beide nicht besitzt, der habe Religion.

(“Eu falo espanhol com Deus, italiano com as mulheres, francês com os homens e alemão com meu cavalo”, frase atribuída a Carlos I de Espanha.)

Aquele que tem ciência e arte tem também religião; o que não tem nenhuma delas, que tenha religião.

Melhorou.

Veja-se, sabemos que é lugar comum dizer que, quando retirada de contexto, uma palavra, frase ou passagem podem não significar muita coisa. Olhando do presente — e desde uma rede social — nos é facultado (e não é demérito) atribuir uma significação diferente da que foi pensada, sendo permitido até reduzir as palavras a definições de glossário, ainda mais porque quando um conteúdo é veiculado em mídias distintas naturalmente deverá sofrer alguma alteração não só material, mas também estilística: toda mídia é uma coerção. Desse modo, vamos localizar o fragmento acima em uma leitura bem superficialmente freudiana. Pedimos desculpas.

Pensemos à margem

Os dois versos de Goethe expressariam uma relação de antítese entre (1) um sistema de doutrinas e promessas fundamentado no “sentimento oceânico” descrito em cartas remetidas a Freud por um amigo de nome não revelado, sendo, portanto, a verdadeira e mais profunda fonte da religiosidade e (2) aquilo que o pai da incompreendida psicanálise julga ser as mais altas das realizações humanas: ciência e arte. Goethe, por ser polímata e poeta, concordaria não sei se com aquele mas certamente com este ponto do médico e pensador austríaco.

Freud também consentiria que não convém bater gratuitamente na religião ou mesmo esforçar-se para privá-la daqueles que, por n razões que por ora não cabe aqui indagar, não obtiveram condições ou mesmo incentivos para estreitar vínculos intelectuais e afetivos com assuntos de ciência ou arte. Parece óbvio. Ora, a vida em conjunto, quando modelada por um organismo econômico que põe a nu a competição entre indivíduos apropriadores do preço por suportá-la, dadas as decepções, frustrações e impossibilidades natural e socialmente impostas, demanda certos propósitos (pela via religiosa ou não) que lhes deem um mínimo de segurança em meio aos solavancos da sociedade a fim de que alcancem um furtivo equilíbrio. O óbvio: a vida concreta exige que os viventes sejamos menos sensíveis à informação abstrata.

Especialista

Voltemos, pois, ao texto sobre o texto. Mas, ex-ante, para que este post não nasça póstumo, façamos as vezes de um Brás Cubas, para quem tudo é prático, raso e engraçado e que, se é assim, tem por hábito nivelar assuntos de densidades distintas em um mesmo plano. É o que estamos exercitando aqui, em última análise. Com a consciência livre da culpa, talvez seja lícito dizer, antes que algum crítico de tendência machadiana desdiga, que o defunto-autor, se vivo fosse, seria mais um desses especialistas em tudologia a opinar nas augustas redes sociais, acusando alguém de alguma coisa.

(Risadinhas à parte, é preciso também frisar: esta casa, que solenemente abre suas portas, não terá por finalidade a literatura. Nem de muito longe, para lá da serra, é o campo de atuação de seu anfitrião. Este não possui credenciais acadêmicas na área, não dispõe de ferramental crítico e não domina o código especializado. Apenas se interessa pelo fato literário. Assim, o que poderá despontar, aqui e ali, como já se percebeu, é alguma ou outra referência a este canal tão privilegiado de expressão que é a arte. Isso em razão do apreço por essa linguagem mais do que qualquer outra coisa.)

Escrever, bem ou mal, é calcular

Agora, falemos a sério, não estamos aqui para encher a rua de perna. Nosso pontapé inicial nesta plataforma foi não só pensar o pensamento, mas, sobretudo, tentar adentrar no campo do discurso, tentando analisar suas incidências meticulosas e nada inocentes sobre o real, tal como o fazem, analogamente, determinadas substâncias que agem sobre o sistema nervoso, suspendendo temporariamente o indivíduo de sua mais impregnada experiência de si e alienando-o dos seus princípios exogenamente modelados de realidade. Todo o mais constante, os efeitos do discurso também criam uma realidade, ou recriam uma existente, proporcionando variações na sensibilidade. Quando somos guiados por um discurso mais sofisticado, seja ele científico ou artístico, nossa percepção se altera. A ciência e, mais ainda, a arte podem nos deixar mais autoconscientes do que o normal.

Pois bem. Subterfúgios e prolixidades à parte, no que diz respeito a seus métodos discursivos, premidos entre acrobacias algébricas e computações estatísticas, temos a literatura econômica, que também tem o dom de reduzir a complexidade das relações sociais a parcelas de realidade, como bem prescreve o método indutivo e inferencial. Muita gente pode não reconhecer a definição que se segue, mas a economia, como ciência ainda não encerrada, é pura linguagem aplicada à produção material, ao comportamento humano, às relações políticas (“política” é uma palavra ampla demais para ter sido empregada sem uma especificação conceitual, é verdade). Considerada pelos economistas como a mais científica, racional e impessoal das ciências sociais, a economia está a todo instante buscando meios de resolução para suas controvérsias, proferindo desde a graduação universitária seus mantras como buscai as condições de equilíbrio ou derivai e igualai a zero.

Deirdre McCloskey (1983:508), a partir de seu fecundo projeto retórico de metodologia econômica, afirma em algum momento que “a ciência econômica é literatura”, “a forma de argumentação dos economistas não é muito distinta do método empregado por Cícero e Homero em seus discursos e novelas”, “a metáfora não é um substituto às vezes utilizado para o significado, ela é o próprio significado” (McCloskey, apud Paulani, 2006). À primeira vista, heresia pura. Mas perceba que essa é a alegria da coisa, esse tipo de literatura — do campo das ciências sociais aplicadas, de lastro temático bem definido, munida de demonstrações cartesianas e que às vezes se assemelha a uma camisa de força — tem também sua beleza, é só cavar. Tão interessante como a origem das ideias econômicas é a origem de suas discordâncias. Trataremos disso por aqui, respeitando sempre nossa limitação, afinal, o autor deste texto é mero “graduando em economia”, ou “quasi-economista”, ou qualquer outra designação vulgar e cafona dentro de uma “curva de aprendizado”. Tudo certo. Ademais, ele, o autor, também já foi “graduando em publicidade”, ou “quasi-publicitário" e ainda atua em áreas com as quais aparentemente, como dito lá em cima, o homo oeconomicus (de quem discorreremos em momento oportuno) não dialoga: comunicação e arte.

Crise de identidade? Não necessariamente, pois não viemos aqui para requentar a weltanschauung, e, sim, para tentar aclimatá-la ao estudo, por vezes indigesto, da ciência econômica. E, assim, o tom adotado nos textos visará ao da crônica ou do ensaio, flertando com o gênero jornalístico-literário — não há como ser de outra forma. Por essas razões, a não menos fetichizante linguagem do raciocínio matemático não será descartada (até porque sem ela sequer haveria sintaxe bem formulada), mas ressalte-se que os escritos que aqui serão publicados não terão a pretensão de se comparar a artigos científicos ou working papers. Não, não; estarão sujeitos a erros, equívocos e, por suposto, ingenuidades; serão mais enxutos; não terão prazo; serão dados a críticas. Sabemos aonde ir, mesmo sem previsão de chegada.

ALVES, Luciene Antunes. Goethe e a tragédia de Gretchen: um estudo sobre a moral.

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad, Waltensir Dutra. S. Paulo, Martins Fontes, 1983.

FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. [S.l: s.n.], 2006.

FREUD, S.(1930 [1929]) O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em prosa moderna. 27ª ed. R. de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2010.

PAULANI, L. M. Neoliberalismo e retórica: o capítulo brasileiro. Em: Ganem, Angela; Freitas, Fábio; Mello de Malta, Maria. (Org.). Economia e Filosofia: controvérsias e tendências recentes. 1ªed.Rio de Janeiro. : Editora da UFRJ. 2012.p. 193–216.

REGO, J. M.; GALA, P. (org.) A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica. São Paulo: Editora 34, 2003.

SCHOPENHAUER, A. A arte de escrever. Tradução de Pedro Sussekind. 1. ed.: L&PM Pocket, 2010.

fez publicidade, faz economia, fará filosofia; é desenhista

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